Casar ou Curtir a Vida?

Chama a atenção a incidência de separações entre jovens recém casados. Os casamentos duram apenas meses e não passam dos dois anos! O processo de separação desses jovens ocorre de acordo com modelos de padrões muito semelhantes.

Um padrão de casal. Leo e Felícia conheceram-se no final da adolescência, ele com 17 e ela com 16 anos. Formaram um belo par e continuaram juntos e felizes ao longo da formação universitária. Ela terminou o curso de administração antes de completar 23 anos e foi aproveitada como profissional dessa área na empresa em que fez seu último estágio. O casamento dos dois ainda esperou que Leo completasse sua residência em medicina, um pouco antes de completarem 10 anos de um namoro invejavelmente feliz. Todos os seus amigos e familiares apostavam que eles seriam felizes para sempre no casamento.

Felícia foi a primeira a perceber a grande mudança em seu relacionamento afetivo, ainda no primeiro ano de casamento. Ambos reclamavam muito um do outro de coisas do dia a dia. Ela se queixava de que ele não ajudava na logística da casa nem tinha autonomia para cuidar de si mesmo, de sua comida e coisas pessoais. “Ele engordou e abandonou a academia. Não ajuda com o supermercado e não é capaz nem de esquentar seu prato no micro-ondas.”

Ele se queixava de que ela nem sempre ia para casa logo depois do trabalho e que ficava com fome à espera dela.

Em contrapartida, ela dizia que as coisas não eram mais como antes, que não saiam mais para festas e restaurantes e que a vida estava chata.

Ele enfatizava seu excesso de trabalho e o desconforto da casa nos momentos de descanso. Embora Leo e Felícia tivessem um bom diálogo, não conseguiram chegar a um bom entendimento sobre essa relação conflituosa. O impasse aprofundou, diminuindo as possibilidades de acerto entre os dois. Foi então que Felícia propôs separação. Leo achou isso incompreensível e não aceitou. Seu argumento para recusar a separação era razoável. Estavam ainda em fase de adaptação e ele reconhecia que deveria flexibilizar as coisas, ajudar com a logística. Mas depois de algumas semanas a relação ficou ainda mais difícil, quando ficou evidente que Felícia aumentou seus interesses por outras coisas, como sair com amigas e chegar mais tarde em casa, aumentar os amigos no Face-Book ou fazer um MBA em gestão de pessoas. Quanto mais Leo reclamava, mais ela tornava clara a proposta de separação que Leo rejeitava, sempre mais e mais veementemente. Seja como for, surpreendentemente para todos, numa tarde de quarta feira, os dois foram ao cartório e concretizaram o divórcio. O depoimento dos dois, duas semanas mais tarde, é também surpreendente.

Leo dizia: “Para mim foi deprimente. Fiquei muito angustiado ao longo dos dois meses em que ela insistia em separar enquanto eu não via motivo para isso. O que mais me doeu foi a insensibilidade dela. Entretanto, depois de assinar os papéis do divórcio, senti um grande alívio e agora estou muito bem, curtindo a liberdade da vida de solteiro!”

O depoimento de Felícia era bem diferente: “Ele dizia que não queria separar, mas não fazia nada para melhorar a nossa relação, que não estava boa. Eu continuei a insistir em mostrar a ele que as coisas não estavam bem e que daquele jeito não valia a pena. Ele continuava sempre com a conversa de que eu não valorizava a casa e a família! Agora, separada, estou arrasada. Ele não me compreendeu como mulher. Queria mais o conforto da casa do que a alegria de viver que eu esperava do casamento.”

A estória de Leo e Felícia é o resumo de vários casos que ocorreram de acordo com o mesmo processo. Em resumo, podemos descrever os elementos comuns a todos os casos:

O Tempo de Namoro. O namoro dura de 2 a 10 anos, uns 5 anos em média. Nesse tempo, o casal aprofunda a sua intimidade e aproveita a vida feliz e descomprometida das obrigações. Em geral, o namoro dura o tempo necessário para que os dois tenham uma independência econômica básica, necessária para o casamento. A relação é caracterizada pelo amor e pelo prazer de aproveitar a vida mais do que pelas obrigações ligadas ao compromisso. O compromisso afetivo é o mais importante.

Independência econômica. A relação é caracterizada pela autonomia das duas pessoas. Cada um deles ganha suficientemente bem para que vivam confortavelmente. É importante notar que cada um deles ganha o suficiente para se manter, mesmo que um deles ganhe muito mais, não importa se o homem ou a mulher.

Bens patrimoniais. Em geral, o casal não permaneceu junto por tempo suficiente para que chegasse a formar um patrimônio e, quando tinham posses, eram anteriores ao casamento. Praticamente todos estavam casados com comunhão parcial de bens. Em alguns casos, estavam investindo juntos na compra da casa do casal ou da futura família.

Filhos. Todos os casais observados, menos dois, separaram-se antes de ter filhos. No projeto de casamento haviam decidido ter filhos não antes de completarem 30 anos, de acordo com o argumento de aproveitar a vida antes da chegada dos filhos. Em alguns casos era bastante evidente que o homem queria filhos mais do que a mulher.

O sonho do casamento. Antes do casamento, o homem e a mulher sonhavam com coisas muito diferentes. Resumindo muito, a mulher buscava uma continuidade da felicidade encontrada e mantida no tempo de namoro, enquanto o homem buscava uma espécie de repouso do guerreiro e imaginava um espaço de conforto, como o que tinha em sua casa de origem. Para ambos, a família composta de filhos só ocorreria mais tarde, em um futuro não muito determinado.

Trabalho. Tanto o homem como a mulher trabalham e são auto-suficientes economicamente. A concepção de trabalho, em estrutura profunda, é diferente em cada um deles. O homem pensa na construção do patrimônio da família e chega a negligenciar os custos do cotidiano, principalmente no que se refere à manutenção da casa. A mulher acha que seus ganhos são parte de seu anseio de autonomia, entende que deve utilizá-los para as suas necessidades pessoais individuais e foca mais o aqui e agora do que as necessidades futuras.

O risco da relação. Na fase de namoro essa relação não parecia ter risco de rompimento, tanto que a separação surpreende muito às pessoas, principalmente por acontecer após um tempo muito curto de casamento. Quando está decepcionada com um casamento que não preencheu seus sonhos, a mulher coloca a relação em visível estado de risco, ao propor separação e ao assumir atitudes descomprometidas com uma relação valiosa. Por sua vez, o homem, quando ocorre a crise, rejeita a possibilidade da separação e se esforça para corrigir aquelas coisas de que a companheira se queixa.

Decifra-me ou te devoro. A explicação para o término tão abrupto de relações que pareciam boas e que tinham tudo para durar não é fácil nem simples. Muitas tentativas de explicação baseadas em interpretações de comportamentos não são convincentes. Por exemplo, a intimidade sexual antes do casamento tem sido aventada por especialistas. Esse tipo de explicação tem geralmente um cunho moralista. Felicidade sexual e alegria de viver nunca atrapalharam relações. Ao contrário, o casamento antigo, em que a experiência sexual anterior ao casamento era proibida, fez muitas relações infelizes.

Os fatores sócio-econômicos, como a ausência de patrimônio, a ausência de filhos e a autonomia econômica podem ter facilitado a separação, mas não a determinaram. A marcante diferença de concepção do casamento entre o homem e a mulher deve ser o caminho pelo qual essa importante dificuldade relacional poderá ser não apenas compreendida, mas também talvez resolvida. O efeito mais evidente dessa defasagem conceitual está no modo como cada um deles compreende a comunicação do outro. Ambos falam metaforicamente e ambos compreendem ao pé da letra o que o outro diz!

Quando a mulher diz que está insatisfeita e que quer se separar quer dizer:

  • “Nossa relação não está boa. Deveríamos terminá-la para que, então, pudéssemos começar outra tão boa quanto a que tínhamos antes de nos casarmos!”

Quando o homem responde que não quer se separar e está até disposto a cooperar com a casa, a mulher entende que ele não quer consertar as coisas no sentido subjetivo e que é uma questão objetiva, de interesse dele, que dever ser resolvida. Ele simplesmente não quer sair da zona de conforto. Com base em como ela entende essa resposta, ela intensifica se propósito de separar (= consertar as coisas) e acaba por colocar a relação em maior risco, para que ele entenda seu propósito. Ela leva esse risco ao máximo e assina o termo de divórcio em cartório, com a certeza inconsciente de que as coisas serão reparadas depois do término da relação inadequada. Após a assinatura, o homem entende que, afinal, está livre dessa tortura e vai viver a vida. Ela fica estarrecida diante de tamanha incompreensão!

Quando o homem diz (em resposta à proposta de separação) que não quer separar e que vai cooperar com a logística quer dizer:

  • “Nossa relação está boa e estou disposto a fazer a minha parte para que a nossa casa funcione bem e seja o meu repouso de guerreiro!”

Quando ela diz que tudo está muito chato e que ele está perdendo a alegria de viver ele entende que ela não quer uma família. Então, logicamente, ele insiste em fazer o supermercado e em convidá-la para estruturar uma família. Ele acaba concordando com a idéia de que, já que ela não quer uma família, pode ser conveniente separar e acaba assinando o divórcio. Pensa então em aproveitar a vida enquanto não encontra alguém que, como ele, valoriza a família e o conforto do lar!

Antropologia comparada. Na espécie dos tigres existe uma igualdade de gêneros que faz com que cada indivíduo seja totalmente autônomo. É a mamãe tigresa quem determina isto, tratando com igualdade os filhotes. Enquanto são pequenos, traz comida para todos e, quando se tornam grandes o bastante, leva-os para aprender a arte da caça, sem discriminação de gênero. Desse modo, o tigre e a tigresa crescem para serem exímios caçadores. Essa autonomia faz com que cada indivíduo baste a si mesmo e um ser tão independente prefere viver sozinho, sem pagar o ônus de viver em grupo.

Na espécie dos leões existe uma diferença. Mamãe leoa também alimenta os filhotes pequenos sem distinção de gênero, mas quando chega a idade de aprender a caçar, leva o filhote fêmea para caçar com ela, para ensiná-la a caçar, mas não o filhote macho, para quem prefere continuar a trazer comida.

Apenas o leão alfa permanece no bando, de modo que, assim que o filhote ganhar idade, será expulso do grupo. Se for forte o bastante, enfrentará um leão alfa e se tornará o líder em seu lugar. Se não for, se tornará periférico e terá dificuldades em sobreviver. A vida do leão não é fácil e, seja como for, mesmo que se torne um alfa, acabará sendo batido por outro leão. Já as leoas aprendem a caçar em grupo e não se importam muito com o leão alfa que, mais cedo ou mais tarde, será substituído.

Tigres são bichos autônomos, muito independentes que não dependem de grupo nem têm que ser muito fiéis. São hábeis caçadores e vivem vidas solitárias.

Leões são animais mais organizados, sabem caçar em grupo e gostam da vida em conjunto. Os machos vivem uma vida difícil, em que têm que escolher entre a periferia e a disputa.

Seres humanos pensam que podem escolher entre ser tigre/tigresa ou leão/leoa. A escolha, entretanto, não é simples nem fácil, porque em toda escolha, o que se ganha aqui, se perde ali. Além disso, escolhas mal elaboradas geram ambiguidades!

Maurício de Souza Lima.

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