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Terça-feira
Jan172012

COISAS IDIOTAS ALIVIAM O STRESS | por Mauricio de Souza Lima

Qualidade de vida é uma condição subjetiva, portanto, difícil de estabelecer critérios objetivos de conceituação. Em geral, pensamos que, se a pessoa se sente bem em relação ao que vive, tem boa qualidade de vida. Entretanto, critérios puramente subjetivos podem conter armadilhas importantes. Por exemplo, alguém muito feliz com seu trabalho pode exceder em sua atividade e entrar em stress. Isso é muito mais comum do que se pensa.
Presença ou ausência de stress é uma consideração importante na avaliação da qualidade de vida, mas não é totalmente conclusiva, uma vez que a pessoa improdutiva pode também estressar-se. Bem como, a pessoa produtiva pode negligenciar coisas importantes para evitá-lo.
A essência da questão parece mesmo estar relacionada com o stress, como lidar com ele, produzindo o que for necessário e deixando sobrar alguma energia para viver as coisas boas da vida. Muita gente não consegue. É importante ressaltar que o stress não é apenas o esforço e o cansaço produzido por ele, mas também e principalmente a perda da capacidade de recuperar as energias investidas no esforço. Não é possível não ter stress e as pessoas que o administram bem são as que se desgastam e se recuperam.
Com esse raciocínio baseado na capacidade que a pessoa tem de se empenhar e se recuperar dos desgastes é possível definir as três condições mais básicas para uma qualidade de vida. Em nossa cultura, trabalho, lazer e descanso são as três condições mínimas para que alguém possa afirmar que tem qualidade de vida. Quem não tiver uma ou mais dessas três condições sentirá falta de alguma coisa. É preciso defini-las.
Trabalho e o que se faz por compromisso. Essa estória de que trabalho deve ser prazeroso é uma falácia, porque nenhum trabalho pode produzir prazer o tempo todo e as pessoas continuam a produzir mesmo quando estiver desgastante. O que caracteriza o trabalho é a obrigação.
Lazer é o que fazemos por puro prazer, por divertimento. Cuidado também com as armadilhas. Lazer não pode ser obrigação.  Muitas vezes, o stress é consolidado naquela partida de tênis obrigatória, jogada depois do trabalho, que sobrecarrega ainda mais a tensão do escritório.
Descanso é o que se faz ou se deixa de fazer para recarregar as baterias. Descanso é feito de atividades leves e relaxantes, de um cochilo depois do almoço ou de uma boa noite de sono, entre outros exemplos.
Trabalho, lazer e descanso têm várias áreas de interseção, o que pode, muitas vezes, nos confundir. Trabalho pode ser prazeroso e nos fazer trabalhar demais. Lazer pode nos levar a uma competição desgastante e não trazer o relaxamento adequado.  Tarefas simples podem produzir descanso... Trabalho não é feito só de coisas prazerosas, contrariando as pessoas que pensam que todo trabalho tem que ser gratificante. Lazer não é feito só de atividades nobres, como música clássica, literatura de vanguarda, esportes nobres ou discussões filosóficas. Relaxamento e descanso não dependem apenas de cultivar orquídeas ou tocar Mozart ao piano.
Além disso, voltamos muitas vezes do trabalho para casa com a mente cheia de processos inacabados de nossas atividades profissionais. Continuamos a discutir em nosso mudo diálogo interno as dificuldades que tivemos com nosso chefe, nosso cliente, nossas contas em aberto, enfim, nossas pendências. E ainda temos que encarar as dificuldades da nossa casa! Desse modo, com a continuidade do processamento interno dos problemas do trabalho, não será possível relaxar nem dormir bem.
Algumas informações sobre nosso cérebro, esse ilustre desconhecido, podem ajudar-nos a administrar esse frequente padrão de stress, que, ao mesmo tempo sobrecarrega o cérebro e o impede de descansar.
A primeira informação está relacionada com a continuidade da atividade cerebral. O cérebro nunca para. Mesmo durante o período de sono existe intensa e importante atividade cerebral.  Então, como o cérebro descansa?  Quando se mantém em uma mesma atividade, ocorre o esgotamento da área em ação, o que, sem o devido descanso, comprometerá todo o organismo de forma sistêmica, levando a pessoa a ficar bloqueada e impedida de descansar.  Então, o cérebro descansa mudando de atividade.
Outra informação importante nos diz que o cérebro descansa fazendo coisas simples, fáceis, principalmente tarefas aparentemente sem sentido, que poderíamos facilmente rotular de idiotas.  É por isso que atividades irrelevantes, como assistir à novela na televisão, fofocar com amigos no site de relacionamento, jogar paciência no computador, assistir ao vazio programa de reality show, entre outras coisas banais, podem ser tão reconfortantes.  Ninguém faz essas coisas quando tem energia sobrando para coisas melhores, mas não se pode negar o quanto são relaxantes.
O Zapping, essa estranha mania de passar e repassar os canais de televisão, reúne todas essas características.  É totalmente sem sentido, irrelevante, irracional, facilmente rotulável de idiota. A regra básica é passar por todos os canais, sem se demorar em nenhum. Se alguma coisa começar a fazer sentido, mude! Para a pessoa que não tem energia sobrando para processar qualquer raciocínio é extremamente relaxante. Meia hora de Zapping varre qualquer diálogo interno da nossa cabeça. Tem hora que não dá pra ler Dostoievski. Zapear é melhor.
Algumas pessoas, entretanto, não se conformam em fazer coisas idiotas, nem em permitir que as outras as façam. Fico tentando entendê-las. Pode ser que elas tenham sempre energia sobrando, e então, é claro que podem e devem fazer coisas de mais alto nível. Isso, entretanto, não é muito provável. A maioria das pessoas trabalha mais do que quer e vive sob intensa pressão do trabalho e das dificuldades da vida. Portanto, a maior possibilidade é a de que essas pessoas sejam também sobrecarregadas, como todo mundo, e não se permitem fazer coisas irrelevantes porque são perfeccionistas.  Não relaxam e nem permitem que os outros relaxem.
Essa pessoa perfeccionista pode ser sua mulher, que te pede para deixar de ser retardado e parar com essa coisa idiota quando você está zapeando, para que ela veja sua novela predileta. Ou pode ser o seu marido que te pede para sair das suas futilidades e parar com esse vício idiota de ver novela, para que ele sintonize o canal de futebol e comece a zapear quando o time adversário faz gol. A verdade é que um sempre quer tirar a possibilidade de relaxamento do outro.
Quando encontrar uma pessoa assim, entenda que ela está sobrecarregada e que não tem como relaxar. Não precisa ficar pensando nos padrões de exigência que ela trouxe de sua família de origem, de seu pai severo ou de sua mãe excessivamente exigente. Seja compreensivo com ela. Quase ninguém é. Convide-a para jantar.

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